segunda-feira, 24 de outubro de 2011

OS MESTRES DA VERDADE NA GRÉCIA ARCAICA



É imprescindível afirmar que a experimentação, que sustenta a nossa imagem de verdadeiro, só se tornou uma exigência na sociedade onde a física e a química conquistaram um papel importante. Surge historicamente no pensamento grego a concepção ocidental de uma verdade objetiva e racional. Somente no século VI que a Grécia tem uma determinada imagem da verdade, que assim virá ocupar um foco fundamental. Repare que a reflexão filosófica descobre o objeto próprio de sua busca e se desata do pensamento mítico, fantasmagórico. Sendo assim essa reflexão filosófica organiza uma noção central no que se refere a alethéia ou verdade e adere a um novo tipo de homem e pensamento ,ambos voltados pra a verdade.A partir da alethéia pôde-se diferenciar radicalmente as duas formas de pensamento,tanto o filosófico quanto o religioso.Sendo que esse último indaga diversas questões:qual é o estatuto da palavra do pensamento religioso;com se define o pensamento mítico no que se refere a verdade,etc.
Outro tema interessante diz respeito A memória do poeta.A palavra do poeta, tal como se desenvolve na atividade poética, é ligada duas noções complementares: a musa(palavra cantada, palavra ritmada) e a memória. A palavra cantada é inseparável da memória, por isso que eu disse que ambas se complementam. Ambas são duas potências religiosas que definem a configuração geral que dá a alethéia poética a sua significação. O estatuto religioso da memória =do século XII ao século IX a civilização grega fundava-se não sobre a escrita, mas sobre as tradições orais. E vale ressaltar que uma civilização oral exige um desenvolvimento da memória, técnicas de memória muito precisas. Sobre a inspiração poética, aos poucos vai se caminhando ao adestramento da memória. Saliento que a memória divinizada dos gregos não responde aos mesmos fins que a nossa; era um privilégio de alguns grupos de homens organizados em confrarias. A memória é onisciente de caráter adivinha tório; a palavra cantada, pronunciada por um poeta dotado de um dom de vidência, entra em contato com o outro mundo, é uma palavra eficaz, por virtude própria, torna-se um estatuto de palavra mágico-religiosa.




Ainda nessa época havia uma dupla função do poeta que era celebrar os imortais; celebrar as façanhas dos homens corajosos, guerreiros (o feito humano) e as palavras que contavam as histórias dos deuses. Ocorrem assim, vários relatos a respeito dessa abordagem, como por exemplo, o poema de Hesíodo que foi o principal testemunho na Grécia que marca uma obra escrita, ditada e que não mais apresenta um relato oral, pronunciado por ocasião de uma festa ritual. Há aqui o único testemunho de uma palavra cantada, consagrada ao louvor de um personagem real, o rei, em uma sociedade centrada na soberania, tal como ocorre na civilização micênica. E atesta também a mais antiga representação de uma VERDADE política e religiosa. Recordei-me agora de Pilatos que indagou a respeito da verdade?O QUE É VERDADE?Ela existe, mas não é alcançável. Ocorre meramente uma verossimilhança.
Ulteriormente, ainda nessa mesma “era da verdade” surgem as musas que tinham a função de dizer a verdade; dizem o que é o que foi e o que será. São as palavras da memória. São elas também que influem no momento em que o guerreiro pratica atos heróicos e que lhe custarão uma memória ilustre. A vitória dos guerreiros é puro favor dos deuses e as façanhas levada através da palavra do louvor, o estatuto do louvor. Através do seu louvor, o poeta concede ao homem uma memória. Sem o louvor leva ao homem a obscuridade, ao esquecimento. Já o louvor leva o homem a luz, a verdade, a alethéia. Quando um poeta pronuncia uma palavra de elogio ele faz uma alethéia.Na antiga Esparta portanto possuía dois estatutos que faziam a lei : o louvor e a censura. O primeiro já foi explicado anteriormente e o segundo era observar o outro, as ações do outro e lançar elogios ou zombarias. Outro ponto que deve ser discutido é o desaparecimento, o sumiço da idéia do mágico-religioso. Quando se dá isso? A idéia do mágico- religioso, da palavra mágico-religiosa perde a sua eficácia a partir do momento que ela passa a ser condenada pela democracia clássica. Repare: o poeta exaltava os nobres, louvava os ricos proprietários. Logo ficavam a serviço da nobreza cada vez mais ávida de louvores, na proporção em que suas questões políticas são contestadas. Isso vai se defasando e conseguintemente o poeta perdendo seus valores e na cidade grega. Em suma, não “há mais lugar” nesse período histórico para a palavra mágico-religiosa. Mesmo assim O POETA VAI SER SEMPRE o mestre da verdade, uma verdade que ninguém contesta ou contradiz.

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